O Fluminense é um exemplo curioso dessa transformação. O clube conta atualmente com três jogadores acima dos 40 anos que continuam participando de partidas importantes: o goleiro Fábio, o zagueiro Thiago Silva e o atacante Hulk.
O trio reúne funções completamente diferentes dentro de campo, mas possui algo em comum: conseguiu prolongar a carreira em alto nível.
Fábio completou 46 anos em 30 de setembro de 2026. Thiago Silva tem 42, enquanto Hulk chegou aos 40 em julho. Os três fazem parte de um grupo de jogadores que desafia a ideia de que o futebol profissional é necessariamente uma atividade exclusiva para atletas jovens.
Mas afinal, o que permite que esses jogadores continuem atuando depois dos 40?
A resposta não está em um único fator.
O corpo é apenas uma parte da explicação
A longevidade esportiva costuma envolver uma combinação de características físicas, genética, hábitos, preparação, recuperação e gerenciamento da carga de treinamento.
No caso de atletas profissionais, existe ainda uma estrutura de trabalho que inclui fisiologistas, preparadores físicos, médicos, nutricionistas e profissionais responsáveis pela recuperação.
Isso permite acompanhar de maneira muito mais detalhada como o organismo responde aos treinos e às partidas.
A ideia é simples: um jogador veterano não necessariamente precisa treinar menos. Ele precisa, principalmente, ter sua carga administrada de acordo com suas características e necessidades.
O controle pode envolver intensidade dos treinamentos, quantidade de minutos em campo, recuperação entre partidas e acompanhamento individualizado.
A reportagem do ge destaca justamente o controle de carga como um dos fatores relacionados à longevidade do trio tricolor.
Fábio é um caso fora da curva
Entre os três, Fábio chama atenção pela idade.
O goleiro completou 46 anos e continua atuando profissionalmente pelo Fluminense. A posição também possui algumas particularidades que ajudam a explicar por que determinados atletas conseguem permanecer em atividade por mais tempo.
Goleiros não percorrem a mesma distância de um jogador de linha durante uma partida. Eles também não precisam participar constantemente de disputas de velocidade pelo campo.
Isso não significa que a posição seja fisicamente fácil.
Saltos, impulsões, mudanças rápidas de direção, reflexos e movimentos explosivos exigem muito do corpo.
A diferença está no tipo de esforço.
Em vez de correr dezenas de metros repetidamente, o goleiro precisa estar preparado para realizar movimentos de alta intensidade em momentos específicos.
Fábio também acumulou uma enorme experiência ao longo da carreira. Em 2026, ele alcançou o recorde de jogos disputados na história da Copa Libertadores, chegando a 116 partidas na competição.
Thiago Silva transformou experiência em recurso
Aos 42 anos, Thiago Silva ocupa outra posição que exige características específicas.
O zagueiro precisa disputar bolas aéreas, realizar coberturas, acompanhar atacantes e participar da construção das jogadas. Porém, diferentemente de um ponta ou de um atacante que busca constantemente espaços em velocidade, o defensor pode compensar parte da perda de explosão com posicionamento e leitura do jogo.
É aí que a experiência ganha valor.
Um zagueiro que entende antecipadamente onde a jogada pode acontecer pode chegar ao local antes do adversário, sem precisar necessariamente disputar uma corrida de longa distância.
Thiago Silva é conhecido justamente pela capacidade de leitura defensiva e pela experiência acumulada em diferentes níveis do futebol.
O próprio jogador já afirmou que não pretende prolongar indefinidamente a carreira, mas segue atuando pelo Fluminense aos 42 anos.
Seu retorno ao clube aconteceu em junho de 2026, depois de uma passagem de seis meses pelo Porto. O contrato atual vai até o fim da temporada.
Hulk enfrenta um desafio diferente
Hulk chegou aos 40 anos em julho e ocupa uma posição que exige bastante fisicamente.
O atacante precisa arrancar, mudar de direção, proteger a bola, disputar espaço com defensores e finalizar.
Mesmo assim, o jogador continua conseguindo produzir momentos decisivos.
Um dos exemplos aconteceu na Libertadores. Contra o Platense, em setembro, Hulk marcou um gol e deu uma assistência aos 40 anos e 45 dias.
Segundo a Conmebol, ele se tornou o jogador mais velho a marcar e dar assistência na mesma partida em competições da entidade desde 2013.
A atuação mostra que longevidade não significa apenas continuar entrando em campo.
Também existe a capacidade de permanecer relevante.
A experiência ajuda a economizar energia
Um dos pontos mais interessantes quando se fala em atletas veteranos é que experiência pode compensar determinadas limitações físicas.
Um jogador mais jovem pode depender mais da velocidade para ganhar uma disputa.
Um atleta experiente pode tentar antecipar a jogada.
Um atacante pode evitar movimentos desnecessários e escolher melhor o momento para acelerar.
Um zagueiro pode se posicionar corretamente antes que o adversário receba a bola.
Um goleiro pode interpretar melhor a trajetória de um cruzamento porque já enfrentou situações semelhantes centenas de vezes.
Isso não significa que a experiência substitua a preparação física.
Ela pode, entretanto, mudar a maneira como o jogador utiliza seu corpo.
A tecnologia também mudou o futebol
Outro fator importante para explicar a longevidade dos atletas está na evolução da preparação esportiva.
Hoje, clubes profissionais conseguem acompanhar diversos indicadores relacionados ao treinamento e à recuperação.
GPS, análise de desempenho, monitoramento da carga de treino e avaliações físicas permitem que a comissão técnica tenha mais informações para decidir quanto determinado jogador deve treinar ou jogar.
O objetivo é reduzir situações de sobrecarga e melhorar a recuperação.
Para atletas mais velhos, esse planejamento pode ser especialmente importante.
Em uma temporada com muitos jogos, o problema não é apenas disputar uma partida. É conseguir recuperar o corpo para estar novamente preparado poucos dias depois.
Alimentação e recuperação também fazem parte da rotina
A carreira de um atleta profissional não termina quando acaba o treino.
Sono, alimentação, hidratação, fisioterapia e recuperação muscular fazem parte da rotina.
Com o avanço da idade, esses cuidados podem ganhar ainda mais importância.
A recuperação que acontecia naturalmente com mais rapidez aos 20 anos pode exigir maior atenção posteriormente.
Por isso, a longevidade não deve ser atribuída apenas a um talento natural.
Genética pode ter influência, mas hábitos e estrutura profissional também fazem parte da equação.
O Fluminense encontrou uma combinação incomum
Ter um jogador acima dos 40 anos em um elenco profissional já é algo pouco comum.
Ter três é ainda mais raro.
Segundo levantamento da Conmebol, o Fluminense é um caso singular entre os clubes brasileiros da elite: Fábio, Thiago Silva e Hulk formam o trio de jogadores acima dos 40 anos que segue atuando pela equipe.
A presença dos três também tem impacto sobre o próprio ambiente do elenco.
Eles acumulam experiências de diferentes gerações do futebol e já passaram por situações que jogadores mais jovens ainda estão começando a conhecer.
Em setembro, o técnico Marcão falou sobre a importância dos atletas experientes na construção das estratégias do time e citou justamente Fábio, Thiago Silva e Hulk, além de Ganso.
Experiência não significa ausência de limites
É importante não transformar esses casos em uma regra.
O fato de Fábio, Thiago Silva e Hulk continuarem jogando aos 40 anos não significa que qualquer atleta possa fazer o mesmo seguindo exatamente a mesma rotina.
Cada organismo envelhece de uma maneira.
Além disso, posição, histórico de lesões, características físicas, estilo de jogo e carga acumulada ao longo da carreira são diferentes.
A longevidade desses jogadores é justamente interessante porque combina fatores individuais com uma estrutura profissional de alto nível.
Um novo conceito de carreira no futebol
A história dos três jogadores também mostra como o futebol mudou.
No passado, era comum imaginar que um atleta profissional precisaria se aposentar pouco depois dos 30 anos.
Hoje, jogadores conseguem permanecer competitivos por mais tempo graças a avanços na preparação física, medicina esportiva, nutrição, recuperação e análise de desempenho.
Mas a idade continua sendo um desafio.
O que mudou foi a capacidade de administrar esse processo.
Fábio, Thiago Silva e Hulk representam três maneiras diferentes de envelhecer dentro do futebol.
O goleiro depende de reflexos, posicionamento e experiência. O zagueiro combina leitura defensiva e capacidade física. O atacante precisa encontrar maneiras de preservar potência e explosão enquanto utiliza cada vez mais inteligência para escolher os momentos das jogadas.
O segredo pode estar no conjunto
Não existe uma fórmula única capaz de explicar por que um jogador consegue atuar profissionalmente depois dos 40.
No caso do trio do Fluminense, o resultado parece estar na combinação entre características individuais, experiência, preparação, recuperação e controle das cargas de trabalho.
A idade, nesse cenário, deixa de ser apenas um número.
Ela passa a representar também uma quantidade enorme de conhecimento acumulado.
Aos 46 anos, Fábio continua defendendo o gol. Aos 42, Thiago Silva segue organizando a defesa. Aos 40, Hulk continua participando de jogadas decisivas.
Mais do que desafiar o calendário, os três mostram como o futebol profissional encontrou novas maneiras de prolongar uma carreira.
E, para o Fluminense, essa experiência se transformou em uma característica marcante do elenco de 2026.
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