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Brasil e EUA voltam a negociar tarifas no G20; entenda o que está em jogo

Brasil e EUA negociam tarifas durante reunião do G20. Entenda as sobretaxas, produtos afetados e o que está em discussão.
Brasil e Estados Unidos terão uma nova rodada de negociações sobre as tarifas aplicadas aos produtos brasileiros durante a reunião de ministros de Comércio do G20, marcada para 30 de setembro e 1º de outubro, em Milwaukee, no estado americano de Wisconsin.

O encontro presencial deve reunir o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. As equipes dos dois países já vinham mantendo conversas técnicas antes da reunião.

A negociação ocorre em um momento em que parte das exportações brasileiras para o mercado norte-americano está sujeita a sobretaxas adicionais. Dependendo do produto, as cobranças podem chegar a 37,5% em tarifas adicionais, além das tarifas normais de importação dos Estados Unidos.

A reunião, portanto, será mais uma etapa de um processo que envolve comércio exterior, empresas exportadoras, setores industriais e agrícolas e as regras que determinam o custo dos produtos brasileiros no mercado americano.

Por que Brasil e Estados Unidos estão negociando?

A atual disputa comercial ganhou força com a adoção, pelos Estados Unidos, de novas medidas tarifárias baseadas na Seção 301 da legislação comercial americana.

Em julho de 2026, Washington estabeleceu uma sobretaxa adicional de 25% para determinados produtos brasileiros. Outra medida, relacionada à investigação americana sobre combate ao trabalho forçado nas cadeias globais de produção, estabeleceu uma sobretaxa adicional de 12,5% para produtos brasileiros, observadas as exceções previstas.

Quando as duas medidas atingem simultaneamente o mesmo produto, as sobretaxas podem chegar a 37,5%.

O governo brasileiro contesta as medidas e afirma que elas não são compatíveis com as regras multilaterais de comércio. Em nota conjunta divulgada em agosto, os ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento disseram que o Brasil permanece aberto ao diálogo e que as negociações devem buscar um entendimento bilateral.

Do lado americano, as medidas foram justificadas dentro de investigações conduzidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Documentos do governo americano também mostram que Washington vinculou parte das medidas a questões relacionadas a práticas comerciais e ao trabalho forçado.

Quais produtos brasileiros estão sujeitos às tarifas?

Um dos pontos que tornam a discussão mais complexa é que a tarifa não é igual para todos os produtos brasileiros.

Segundo levantamento do MDIC com base nos dados de comércio de 2024, aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos estavam sujeitas às novas sobretaxas decorrentes das investigações da Seção 301.

Desse total:

  • 4,7% das exportações estavam sujeitas apenas à sobretaxa de 12,5%;

  • 1,9% estavam sujeitas somente à sobretaxa de 25%;

  • 16,5% estavam sujeitas simultaneamente às duas medidas, chegando à sobretaxa adicional de 37,5%.

Entre os produtos atingidos pelas duas sobretaxas estão determinados tipos de máquinas e equipamentos, madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções.

Há, entretanto, uma parcela importante das exportações brasileiras que não está sujeita a essas sobretaxas adicionais.

O MDIC estima que 52,7% das exportações brasileiras para os Estados Unidos, considerando o comércio de 2024, não estavam alcançadas pelas sobretaxas das Seções 301 ou pelas tarifas setoriais da Seção 232. Nessa lista aparecem produtos como café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, diversos produtos químicos e grande parte das exportações de celulose.

Isso significa que falar simplesmente em “tarifa dos EUA sobre produtos brasileiros” pode esconder diferenças importantes entre setores.

O que será discutido na nova reunião?

A pauta exata da conversa bilateral não foi divulgada integralmente.

O que está confirmado é que os representantes dos dois países vêm trocando documentos e realizando reuniões técnicas antes do encontro ministerial.

A reunião de Milwaukee deverá servir para avaliar o andamento dessas tratativas e discutir as tarifas que afetam as exportações brasileiras. O ministro Márcio Elias Rosa afirmou anteriormente que a expectativa era realizar uma reunião presencial com o representante comercial americano durante o encontro do G20.

Por isso, é importante diferenciar negociação de acordo.

A realização da reunião não significa, por si só, que uma redução de tarifas será anunciada. Também não significa que todos os produtos terão o mesmo tratamento.

Qualquer mudança efetiva dependerá das decisões adotadas pelos dois governos e da regulamentação correspondente para cada grupo de produtos.

O impacto para as empresas brasileiras

As tarifas têm efeito direto sobre o custo de entrada de uma mercadoria brasileira nos Estados Unidos.

Um exemplo ajuda a entender.

Imagine uma empresa brasileira que exporta determinado produto por US$ 100 mil. Se uma sobretaxa adicional de 25% incidir sobre aquele produto, haverá uma cobrança adicional de US$ 25 mil sobre a base tarifária correspondente.

Se uma mercadoria estiver sujeita às duas sobretaxas e alcançar 37,5%, o valor adicional poderá ser ainda maior.

Isso não significa necessariamente que a empresa brasileira pagará diretamente toda a conta. O efeito econômico pode ser distribuído entre exportador, importador, distribuidores e consumidores, dependendo dos contratos e das condições do mercado.

Mas a tarifa altera o custo da operação e pode influenciar decisões comerciais.

O próprio governo brasileiro criou medidas para empresas afetadas pelas novas tarifas. Em agosto, o MDIC regulamentou a possibilidade de prorrogação excepcional de até 12 meses em determinados atos de drawback, desde que a empresa comprove que seus compromissos de exportação foram afetados pelas tarifas americanas e cumpra os requisitos estabelecidos.

Exportações para os EUA já recuaram

Os dados oficiais também ajudam a dimensionar o contexto da negociação.

As exportações brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 40,4 bilhões em 2024. Em 2025, o valor caiu para US$ 37,7 bilhões.

No primeiro semestre de 2026, as vendas brasileiras para o mercado americano chegaram a US$ 17,4 bilhões, uma redução de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o levantamento do MDIC.

A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras também diminuiu. Entre os primeiros semestres de 2025 e 2026, passou de 12,1% para 9,4%.

Esses números mostram que o comércio bilateral perdeu volume em parte do período em que as novas medidas tarifárias passaram a afetar as operações. A variação, porém, não pode ser atribuída exclusivamente às tarifas, já que preços internacionais, demanda e composição dos produtos exportados também interferem nos resultados.

O que pode mudar depois da negociação?

Há diferentes possibilidades para a continuidade das conversas.

Uma delas seria a revisão das tarifas para determinados produtos ou setores. Outra seria a manutenção de parte das cobranças e a criação ou ampliação de exceções.

Também pode haver negociações específicas para produtos que possuem importância para as cadeias produtivas dos dois países.

O cenário dependerá, principalmente, dos termos que forem discutidos e de eventuais decisões formais posteriores.

Por isso, a reunião do G20 deve ser vista como uma etapa do processo de negociação, e não como garantia de uma mudança imediata nas tarifas.

Essa distinção é especialmente importante para empresas que precisam planejar contratos internacionais. Uma eventual declaração política durante uma reunião não necessariamente altera, no mesmo momento, a regra aplicada pela alfândega americana.

Brasil também busca alternativas para empresas afetadas

Enquanto as negociações avançam, o governo brasileiro adotou medidas destinadas a empresas que tiveram operações afetadas pelas tarifas.

Além da extensão de determinados prazos do drawback, o BNDES passou a operar medidas do Plano Brasil Soberano, criado em 2026 para apoiar empresas diante dos impactos provocados por instabilidade internacional e pela aplicação de tarifas comerciais majoradas.

O objetivo dessas medidas é oferecer mecanismos de financiamento e apoio a empresas que se enquadrem nas regras do programa.

Na prática, a discussão sobre tarifas deixou de ser apenas diplomática e passou a envolver decisões de produção, financiamento, contratos, logística e acesso a mercados.

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Por que o G20 é importante para essa conversa?

O G20 reúne as principais economias desenvolvidas e emergentes e funciona como espaço de diálogo sobre temas econômicos internacionais.

A reunião de ministros de Comércio em Milwaukee ocorre justamente em meio a uma série de disputas comerciais e mudanças nas políticas tarifárias de diferentes países.

Para Brasil e Estados Unidos, o encontro cria uma oportunidade de conversa presencial entre autoridades que já participam das negociações.

Isso não significa que o G20 decidirá sozinho quais tarifas serão aplicadas aos produtos brasileiros. As regras específicas dependem das decisões dos governos responsáveis pelas medidas comerciais.

O encontro, portanto, funciona como parte do ambiente diplomático em que os dois países podem discutir seus interesses e tentar avançar nas tratativas.

O que observar nos próximos dias

Para empresas, investidores e consumidores, alguns pontos devem ser acompanhados após a reunião:

  • quais produtos poderão ter tarifas revistas;

  • se haverá novas exceções;

  • quais alíquotas permanecerão em vigor;

  • a partir de quando qualquer mudança passará a valer;

  • como ficarão contratos de exportação já assinados;

  • se novas medidas de apoio às empresas brasileiras serão anunciadas;

  • e se as equipes técnicas continuarão negociando depois do encontro.

Uma eventual mudança de tarifa não produz necessariamente efeito instantâneo em toda a cadeia comercial. Prazos de implementação, mercadorias em trânsito e contratos existentes podem ter tratamentos específicos.

Negociação ainda não significa acordo

A nova rodada de conversas entre Brasil e Estados Unidos acontece em um cenário de tarifas diferenciadas por produto e de queda recente no comércio bilateral.

O encontro de 30 de setembro e 1º de outubro, em Milwaukee, será uma nova oportunidade para os dois governos discutirem as medidas que afetam as exportações brasileiras.

Até o momento, não há confirmação de uma redução geral das tarifas como resultado da reunião.

Para o setor produtivo, portanto, a informação mais importante será conhecer os termos de qualquer decisão formal: quais produtos serão afetados, qual será a nova alíquota e quando a mudança entrará em vigor.

Enquanto isso, empresas que exportam para os Estados Unidos precisam considerar as regras atualmente vigentes e acompanhar as atualizações oficiais dos dois países.

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