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Por que os ataques de ursos aumentaram em uma região da Rússia

Ataques de ursos deixaram sete mortos em setembro em Krasnoyarsk, na Rússia. Entenda as possíveis causas e os riscos para moradores.
Uma mulher de 51 anos morreu após ser atacada por um urso em seu próprio jardim, na região de Krasnoyarsk, na Sibéria. O caso, registrado nesta sexta-feira (25), elevou para sete o número de pessoas mortas por ataques de ursos na região somente em setembro. O episódio faz parte de uma sequência de ocorrências que chamou a atenção das autoridades russas e levou a investigações sobre a presença crescente dos animais perto de áreas habitadas.

A vítima estava em sua propriedade, no vilarejo de Voznesenka, quando percebeu um urso tentando entrar em um cercado onde mantinha animais domésticos. Segundo informações divulgadas pela agência estatal russa TASS e reproduzidas pela Reuters, o animal avançou contra a mulher e acabou sendo morto a tiros por um vizinho.

O caso chama atenção não apenas pelo número de mortes, mas porque os ataques estão acontecendo em um contexto mais amplo de aproximação entre grandes predadores e comunidades humanas em diferentes partes da Rússia.

Krasnoyarsk concentra uma sequência de ataques

A região de Krasnoyarsk, uma das maiores áreas administrativas da Rússia e localizada na Sibéria, tem registrado uma série incomum de encontros entre ursos e pessoas.

Antes da morte mais recente, seis pessoas já haviam sido mortas por ursos na região durante setembro. A sequência levou o Comitê de Investigação da Rússia a abrir uma investigação por possível negligência contra autoridades responsáveis pelo controle e monitoramento da população de animais.

Segundo os investigadores, a população de ursos-pardos na região chegou a mais de 26 mil animais, representando crescimento de aproximadamente 2,5 vezes em relação a décadas anteriores. Moradores também fizeram mais de 120 registros de aparições de ursos dentro ou nas proximidades de áreas habitadas em mais de 15 distritos.

A situação não se limita a Krasnoyarsk.

Outras regiões da Sibéria e do leste da Rússia também registraram ataques. A Reuters informou que, em 2026, ursos atacaram pessoas em pelo menos 11 regiões russas e provocaram ao menos 20 mortes em todo o país.

Por que os ursos estão chegando mais perto das cidades?

Uma das principais explicações está relacionada à procura por alimento.

Os ursos precisam acumular energia antes do período de inverno e, durante essa fase, podem aumentar significativamente a quantidade de alimento que procuram. Quando encontram dificuldades para obter comida em seu habitat natural, podem percorrer distâncias maiores.

Especialistas ouvidos pela imprensa russa apontaram que uma primavera excepcionalmente seca e antecipada contribuiu para a redução da oferta de frutas silvestres na floresta. Com menos alimento disponível, alguns animais teriam ampliado a área de busca, aproximando-se de locais onde vivem pessoas.

É importante destacar que essa é uma das explicações apresentadas por especialistas, e não significa que todos os ataques tenham uma única causa.

Outro fator citado é a disponibilidade de alimentos deixados pelos próprios seres humanos.

Lixo doméstico, restos de comida e recipientes abertos podem funcionar como uma espécie de convite para animais que possuem excelente capacidade de identificar odores. Quando um urso encontra comida facilmente em uma área habitada, pode voltar ao local.

Esse comportamento aumenta a possibilidade de encontros perigosos.

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O crescimento da população de ursos também entra na discussão

Outro elemento importante é o aumento da população de ursos-pardos na Rússia.

Dados do Ministério de Recursos Naturais russo indicam que o número de ursos-pardos no país passou de aproximadamente 130 mil em 1990 para quase 308 mil em 2026. Krasnoyarsk concentra uma parcela significativa dessa população, com quase 27 mil animais.

O crescimento populacional, entretanto, não significa automaticamente que os ataques deveriam aumentar na mesma proporção.

O próprio Ministério de Recursos Naturais russo afirmou que o país costuma registrar aproximadamente 20 a 30 casos de ataques de ursos por ano e apontou que o aumento da circulação de informações por smartphones e redes sociais também pode fazer com que a percepção sobre o problema seja maior. Segundo a pasta, 2014 teria sido um ponto fora da curva, com 166 ocorrências registradas.

Essa diferença de interpretação é importante.

De um lado, autoridades locais e investigadores apontam uma situação preocupante em determinadas regiões. De outro, o governo federal afirma que os números nacionais de ataques não apresentam necessariamente uma tendência de crescimento proporcional ao aumento da população dos animais.

Um problema que mistura natureza e ocupação humana

Os episódios na Rússia também mostram um desafio conhecido em outras partes do mundo: o contato entre animais selvagens e áreas ocupadas por seres humanos.

Quando uma cidade ou vila avança sobre áreas naturais, as fronteiras entre os ambientes ficam menos definidas. Trilhas, estradas, casas, propriedades rurais e áreas de floresta podem ficar muito próximas.

No caso dos ursos, o problema é ainda mais delicado porque se trata de animais grandes, fortes e capazes de percorrer grandes distâncias.

Em Krasnoyarsk, os investigadores afirmaram que moradores haviam relatado a presença de animais em áreas residenciais e que autoridades tinham sido alertadas. A investigação aberta pelas autoridades russas busca verificar se medidas adequadas foram tomadas para reduzir o risco à população.

Ataques também aconteceram durante atividades na floresta

Muitos dos casos registrados na Rússia ocorreram em áreas de floresta, durante atividades como coleta de cogumelos, plantas e outras atividades ao ar livre.

Em setembro, duas mulheres que estavam colhendo cogumelos morreram em ataques na região de Krasnoyarsk. Um homem que trabalhava como lenhador também foi morto. Na região de Irkutsk, um aposentado que havia saído para colher cogumelos e dois homens que coletavam plantas silvestres também morreram em ataques.

Outro caso de grande repercussão ocorreu na região de Altai, em agosto. Um urso entrou em uma área de acampamento e atacou duas turistas que estavam em uma barraca. Uma mulher de 29 anos morreu.

Os episódios fizeram algumas autoridades adotarem medidas preventivas, como fechamento temporário de trilhas e restrições a determinadas áreas turísticas.

Por que a época do ano aumenta a preocupação?

O calendário também é importante para entender os episódios.

O outono se aproxima no Hemisfério Norte, e os ursos precisam se preparar para o período de inverno. Antes de entrar em sua fase de hibernação, os animais aumentam a busca por alimentos para acumular reservas de energia.

Esse comportamento natural pode colocar os animais em maior contato com áreas onde encontram comida com facilidade.

É nesse momento que resíduos deixados por seres humanos podem se tornar especialmente problemáticos.

Uma lixeira aberta, restos de comida ou alimentos armazenados de maneira inadequada podem atrair um urso. O animal não precisa interpretar aquilo como uma armadilha: simplesmente identifica uma fonte fácil de alimento.

Por isso, medidas de prevenção envolvem não apenas o controle dos animais, mas também o comportamento das pessoas.

O que fazer ao encontrar um urso?

Embora os episódios estejam acontecendo na Rússia, as orientações são relevantes para qualquer pessoa que pratique atividades em áreas onde existam grandes predadores.

A primeira recomendação é evitar correr.

Correr pode desencadear uma perseguição, além de ser uma reação pouco eficaz diante de um animal muito mais rápido que um ser humano.

Também é importante manter distância e evitar aproximar-se do animal, principalmente quando houver filhotes ou quando o urso estiver próximo de uma fonte de alimento.

As autoridades russas recomendaram que moradores evitem, temporariamente, algumas áreas de floresta nas regiões mais afetadas e adiem atividades como coleta de cogumelos e frutas silvestres enquanto os alertas estiverem em vigor.

A recomendação mais segura, quando há presença frequente de animais em uma determinada área, é seguir as orientações das autoridades ambientais e dos serviços locais de emergência.

Rússia já abateu centenas de animais considerados perigosos

O aumento dos encontros também provocou uma resposta controversa: o abate de ursos considerados perigosos.

Segundo levantamento publicado em setembro, centenas de animais já haviam sido abatidos em diferentes regiões russas por representarem risco à população. Algumas áreas adotaram patrulhas e restrições de circulação, enquanto outras discutem medidas de controle da população.

A questão, porém, envolve um equilíbrio delicado.

De um lado está a necessidade de proteger moradores de ataques. De outro, existe a preocupação com a conservação de populações de animais selvagens e com as causas que levam esses animais a entrar em áreas habitadas.

Por isso, especialistas e autoridades discutem não apenas o número de ursos, mas também a disponibilidade de alimento, o manejo de resíduos, a fiscalização e a ocupação de áreas naturais.

O que os ataques revelam sobre as mudanças ambientais?

A sequência de ataques não deve ser interpretada automaticamente como prova de que as mudanças climáticas são a única causa do problema.

Alguns especialistas citados pela imprensa relacionaram condições climáticas, disponibilidade de alimentos e alterações no ambiente à maior movimentação dos animais. Outros fatores, como crescimento populacional dos ursos e acesso a comida deixada por seres humanos, também aparecem nas análises.

Essa combinação é justamente o que torna o fenômeno complexo.

Imagine uma floresta com menos frutas disponíveis em determinado ano. Um urso que normalmente encontraria alimento sem se aproximar das pessoas pode precisar percorrer uma distância maior. Se, durante esse percurso, encontrar uma área com lixo ou animais domésticos, a chance de aproximação aumenta.

Não é necessário que exista uma única causa para que o risco aumente.

Um alerta sobre a convivência com a vida selvagem

A sequência de mortes na Sibéria serve como exemplo de uma questão que pode se tornar mais comum em diferentes regiões do planeta: a necessidade de administrar melhor a convivência entre pessoas e animais selvagens.

Para os moradores, isso significa conhecer os riscos da região onde vivem, respeitar alertas e evitar comportamentos que possam atrair animais.

Para as autoridades, envolve monitoramento, manejo de resíduos, fiscalização, comunicação com a população e protocolos para situações em que animais perigosos se aproximem de áreas habitadas.

No caso da Rússia, a investigação aberta após as mortes em Krasnoyarsk deverá ajudar a esclarecer se houve falhas na resposta das autoridades locais. Enquanto isso, novos relatos continuam sendo acompanhados pelas equipes responsáveis.

O episódio mais recente, que matou uma mulher dentro de sua própria propriedade, mostra como a fronteira entre a vida urbana e a natureza pode ficar muito tênue em regiões onde grandes predadores fazem parte do ecossistema.

Mais do que uma sequência de ataques, o fenômeno coloca em discussão uma pergunta que vai além da Rússia: como proteger as pessoas sem ignorar as condições ambientais e ecológicas que determinam o comportamento dos animais selvagens?

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